O principal objetivo da abordagem cirúrgica da catarata sempre
foi o tratamento da doença. Erros refrativos residuais,
recuperação retardada e complicações eram aceitos e
até esperados por pacientes e médicos. Após o
desenvolvimento das LIOs e da técnica cirúrgica de incisão
pequena, pacientes e médicos ficaram menos tolerantes a resultados
imperfeitos ou inesperados. A motivação da nossa profissão
(aprimorar continuamente a eficácia e a segurança) está
levando ao que provavelmente será a mudança de paradigma na
cirurgia de catarata desde o desenvolvimento da facoemulsificação
ultra-sônica: a cirurgia de catarata refrativa com laser femtosegundo.
Meus convidados nesta coluna são o Dr. Glauco Reggiani Mello, o Dr.
Jonathan H. Talamo e o Dr. Ronald R. Krueger, mestre em saúde.
– Dr. Amar Agarwal, FRCS, FRCOphth
Editor Consultor para Complicações da OSN
por Dr. Glauco Reggiani Mello, Dr. Jonathan H. Talamo e Dr. Ronald R.
Krueger, mestre em saúde
Amar Agarwal
Espera-se que a tecnologia de laser femtosegundo aprimore a
segurança e os resultados da acuidade visual não corrigida,
devido à redução do astigmatismo
pós-cirúrgico, da deiscência da ferida, da
descentralização da LIO e de complicações que
tenham o potencial de afetar a visão, como lágrimas capsulares e
perda de vítreo. Essa tecnologia é capaz de corrigir astigmatismo
pré-existente e induzido com incisões corneanas, usando
incisões corneanas limpas multiplanares feitas com precisão e
incisões relaxantes limbais de profundidade e raio uniformes, e
provavelmente melhorará o posicionamento eficiente da LIO por meio do
uso de incisões de capsulorrexia anterior dimensionadas, centralizadas e
modeladas com precisão.
Tecnologia no desenvolvimento
Atualmente, três empresas, LensAR, Alcon/LenSx e OptiMedica,
estão desenvolvendo a tecnologia de femtosegundo para fazer
incisões corneanas claras principais, paracentese, capsulotomias,
fragmentações de lente e incisões relaxantes limbais.
A incisão principal e o formato, o tamanho e a
localização da paracentese podem ser personalizados (Figura 1). O
perfil da geometria de corte é ilimitado e o formato ideal de
incisão ainda precisa ser determinado.
Uma capsulotomia reproduzível, centralizada e dimensionada e
modelada de forma precisa é um dos diferenciais óbvios do uso do
laser femtosegundo na cirurgia de catarata. Estudos iniciais mostraram
acurácia alta e desvio padrão baixo em capsulotomias feitas com
laser, com resistência igual ou superior em comparação com
a técnica manual.
O laser femtosegundo causa poucos danos no tecido ao redor e se estende
por não mais do que 100 µm a partir do foco desejado do raio
(muito distante do endotélio, que provavelmente não é
afetado). No entanto, o laser femtosegundo é um dispositivo de corte que
só pode fraturar e amaciar a lente até certo ponto, sendo que a
energia do faco ainda é necessária para emulsificar o
núcleo em alguns casos. A redução da energia de ultrassom
é maior em núcleos mais macios, mas é observada uma
redução da quantidade total de energia mesmo em núcleos
enrijecidos.
Vários desenhos diferentes, como cubos, cruzes, círculos e
várias outras formas, de divisão nuclear estão sendo
estudadas para determinar qual é a mais eficiente. O desenho de cubo
(Figura 2) provou ser uma das formas mais fáceis de serem executadas com
energia de faco mais baixa. No entanto, é possível que diferentes
desenhos e combinações sejam mais adequados a diferentes
densidades de esclerose nuclear.
As dúvidas relativas à segurança dos lasers
femtosegundo estão principalmente relacionadas ao deslocamento dos
pulsos do laser, que podem danificar a cápsula posterior. Sendo assim,
é importante programar uma zona de segurança, ou armazenamento,
entre o tecido da lente para a fotodisrupção e a cápsula
posterior. Os perfis de fragmentação estão usando uma
distância segura de 300 µm a 500 µm a partir da
cápsula.
Estudos iniciais da correção do astigmatismo com laser
femtosegundo começaram com resultados promissores. Além da
precisão envolvida em uma incisão feita com laser em
comparação com incisões relaxantes limbais feitas
manualmente (Figura 3), outro grande diferencial da incisão
astigmática feita com laser femtosegundo em comparação com
a fotoablação feita com laser excimer em pacientes com catarata
é que é necessário apenas um procedimento. Além
disso, os lasers femtosegundo podem criar incisões astigmáticas
apenas intraestromais. Embora se espere que esses lasers sejam menos
eficientes, talvez eles provem ser mais seguros e estáveis porque a
camada de Bowman permanece intacta; no entanto, esses benefícios
precisam ser comprovados por meio de mais estudos clínicos.
Complicações, riscos, limitações
Os principais riscos envolvidos na cirurgia são a perda da
sucção durante o procedimento e o deslocamento dos pulsos do
laser. Isso pode levar à ruptura capsular posterior e, em um olho com
pressão elevada devido à sucção, à
possível migração de fragmentos do núcleo para o
vítreo. Pulsos de laser deslocados também podem danificar a
íris, causando hemorragia no segmento anterior ou danos ao
endotélio corneano. O astigmatismo irregular também pode ocorrer
com incisões relaxantes limbais deslocadas.
Para reduzir a chance de energia de laser deslocada no olho, plataformas
de imagem sofisticadas foram desenvolvidas por cada empresa para assegurar a
orientação adequada dos pulsos de laser dentro do olho depois que
a aplicação do laser no olho é feita por meio do uso de um
dispositivo de sucção.
Casos complexos de catarata, como casos com núcleos opacos,
opacidade ou edema corneano, bolha conjuntival devido a cirurgia de filtragem
prévia, ou pouca dilatação da íris, são
contraindicações para o procedimento.
Conclusão
A precisão cirúrgica oferecida pelos lasers femtosegundo
promete uma cirurgia de catarata mais segura e previsível. Os primeiros
resultados mostram uma capsulotomia mais reproduzível e resistente,
excelente arquitetura de incisão e menos energia de ultrassom.
Pesquisas futuras com a tecnologia de laser femtosegundo se
concentrarão no aprimoramento do conceito desses sistemas como
ferramentas precisas de corte intraocular e na determinação dos
melhores nomogramas para incisões relaxantes, a melhor arquitetura para
incisões de catarata e capsulotomias e os parâmetros de energia
ideais para cada uma dessas etapas e circunstâncias.
Para maiores informações:
- O Dr. Amar Agarwal, FRCS, FRCOphth é diretor do Dr. Agarwal’s Eye Hospital e do Eye Research Centre. O prof. Agarwal é autor de vários livros publicados pela SLACK Incorporated, editora da Ocular Surgery News, incluindo Phaco Nightmares: Conquering Cataract Catastrophes, Bimanual Phaco: Mastering the Phakonit/MICS Technique, Dry Eye: A Practical Guide to Ocular Surface Disorders and Stem Cell Surgery e Presbyopia: A Surgical Textbook. Ele pode ser encontrado em 19 Cathedral Road, Chennai 600 086, Índia; fax: +91-44-28115871; email: dragarwal@vsnl.com; site: www.dragarwal.com.
- O Dr. Glauco Reggiani Mello pode ser encontrado na Cleveland Clinic Foundation, 9500 Euclid Ave., Room i32, Cleveland, OH 44195; email: glaucohrm@gmail.com.
- O Dr. Jonathan H. Talamo pode ser encontrado em Talamo Laser Eye Consultants, 1601 Trapelo Road, Suite 184, Waltham, MA 02451-7356; 781-890-1023; email: jtalamo@lasikofboston.com.
- O Dr. Ronald K. Krueger pode ser encontrado na Cleveland Clinic Foundation, 9500 Euclid Ave., Room i32, Cleveland, OH 44195; 216-444-8158; email: Krueger@ccf.org.
- Divulgação de informações: O Dr. Agarwal não tem interesses financeiros relevantes a serem divulgados. O Dr. Krueger é cofundador e investidor da LensAR. O Dr. Talamo é consultor da OptiMedica. A Ocular Surgery News não pôde determinar se o Dr. Mello possui interesses financeiros relevantes a serem divulgados.